quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A vida de Santa Bernadette Soubirous - Parte 1 - continuação


O “calabouço” onde empobrecidos, decadentes, humilhados, os Soubirous tinham encontrado refúgio, era sem dúvida o mais sórdido reduto da antiga cadeia local. Uma das janelas do calabouço apresentava ainda grades de ferro e era preciso evitar abri-la, pois da área para a qual dava, subia o cheiro do esterco que o proprietário ali deixava curtir. Nesse cubículo de teto baixo, paredes enegrecidas, chão de Lages gastas, instalaram os Soubirous como puderam o que lhes restava de mobília, sequer mesa tinham. “Quantas vezes – contou Jeanne Abadie, amiga de Bernadette – “eu a encontrei tomando a sua pobre tigela de sopa a beirada da janela, diante do monte de estrume!”
E isso quando havia sopa! Acontecia faltar até o pão, porque o pai, que se empregava por dia, na cidade, não encontrara serviço; porque a mãe, não tivera roupa para lavar, nem chamados para arrumação de casas. Bernadette, no entanto, segue pontualmente o catecismo do Padre Pomian, capelão do Asilo onde as irmãs de caridade têm também uma escola, porém as palavras do livro não lhe ficam na memória, têm muita dificuldade pois falava em dialeto próprio de sua região. Ignorante, pobre, é ela por certo a mais deserdada das meninas de Lourdes.
Eis no seu quadro de miséria, a heroína sobre a qual, por desígnio incomparável, o Céu fixou a sua escolha.


 
2ª PARTE 
 A PRIMEIRA APARIÇÃO


Na manhã da quinta-feira 11 de fevereiro de 1885, Luisa Soubirous verifica que falta lenha para o fogão. Bernadette, sua irmã Toinette e Jeanne Abadie, uma vizinha de doze anos, vão juntas buscar gravetos na floresta. Se possível, procurarão apanhar também alguns ossos que possam vender, para comprar pão. Mas o que haverá para lá daqueles rochedos banhados pelo canal, chamado de “Massabielle” (massa velha)?
Ao pé de Massabielle, cavou-se uma gruta natural, à qual as enchentes do Gave trouxeram monetes de areia e gravetos. À direita dessa gruta, abre-se no rochedo uma cavidade de forma oval, de onde caem os ramos de um pé de eglantina (roseira silvestre). Mas para chegar até lá é preciso atravessar o canal. A água parada ali existente não pode ser transposta de um salto. Jeanne e Toinette tiram os tamancos, jogam-nos à outra margem, entram com os pés descalços na água gelada e passam para o outro lado, Bernadette com receio da água gelada, pelo mal que sofre hesita atravessar, mas com medo de ficar ali sozinha, decide afinal a retirar a primeira meia quando escuta um rumor de vento.
A menina mergulha o pé na água e ouve mais uma vez o mesmo ruído e olha então para o lado da gruta e segundo as palavras da própria Bernadette que mais tarde descreveria assim: “Logo após, na abertura do rochedo, vi uma jovem toda branca, pouco mais alta do que eu, que me cumprimentou com ligeira inclinação de cabeça. Ao mesmo tempo, afastou um pouco do corpo seus braços estendidos, abrindo as mãos, como a Santa Virgem. No seu braço direito, pendia um rosário. Tive medo, recuei, quis chamar as duas pequenas, mas não tive coragem, sendo que por diversas vezes, esfreguei os olhos, pensando estar enganada.
“Levantando de novo o olhar, vi a jovem que me sorria graciosamente e parecia convidar-me a chegar mais perto. Mas eu ainda tinha medo. Não era porém, um medo como eu tinha sentido em outras ocasiões, pois teria ficado sempre ali parada, a olhar “aquero” – aquela lá! Sendo que quando a gente tem medo mesmo, vai embora depressa. Veio-me então a ideia de rezar. Pus a mão no bolso, tirei o terço que trago habitualmente comigo, ajoelhei-me e quis fazer o sinal da cruz, mas não pude levar a mão a testa: ela caiu-me.
“A jovem, no entanto, colocou-se de lado e virou-se para mim. Desta vez ela segurava o seu grande terço na mão. Persignou-me como para rezar. Minha mão tremia. Experimentei fazer de novo o sinal da cruz e consegui. Depois disso não tive mais medo. Comecei a rezar o terço. A jovem senhora fazia deslizar as contas do seu, entre os dedos, mas não mexia os lábios. Enquanto eu rezava, olhava-a o mais que podia.
“Ela usava um vestido branco, que chegava até os pés, dos quais só aparecia a ponta. O vestido era fechado rente ao pescoço por um franzido do qual pendia um cordão. Um véu branco cobria-lhe a cabeça e descia pelos ombros e pelos braços até quase à barra do vestido. Sobre cada um dos pés, vi uma rosa amarela. A faixa do vestido era azul e caia até abaixo dos joelhos. A corrente do terço era amarela, as contas brancas, grandes e muito distantes umas das outras. Quando terminei ela cumprimentou-me sorrindo, depois recuou dentro do nicho e desapareceu de repente”.
Quando depois de um quarto de hora, Toinette e Jeanne Abadie voltaram para Massabielle, cada uma com seu feixe de lenha, viram Bernadette do outro lado do canal, de joelhos, em êxtase, imóvel, com olhos bem abertos, “branca como se estivesse morta” e de repente voltou a ficar como antes.
No trajeto de volta, Bernadette não se contém e narra a Toinette o que lhe acontecera e quando chegam ao calabouço esta conta imediatamente a mãe, ao que esta já acredita tratar-se de alguma alma penada de algum parente que encontrava-se no purgatório e pede-lhes que rezem.


 A Gruta de Massabielle em 1858




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